A Culpa de Quem Conta
Rodrigo escreve com remorso. Ele sabe que está confortável — sentado, alimentado, dono da pena — enquanto inventa uma criatura que passa fome de verdade. Toda a tortura do narrador nasce de uma suspeita que ele não consegue calar: contar a dor do outro pode ser, no fundo, um modo elegante de aproveitar-se dela.
Como ler: não pule as queixas do narrador como se fossem rodeio. Cada hesitação é uma confissão — a de que falar pelo pobre, sem ele, já é uma pequena violência.