A Moça Que Não Sabe Que Existe
Macabéa atravessa o mundo sem deixar marca: pede desculpa por ocupar espaço, encolhe-se, some. Ela não sabe que existe — assim como um cão não sabe que é cão — e essa inconsciência é a sua pobreza mais funda, mais cruel que a fome: a miséria que rouba até a noção de estar viva. Não há nela revolta nem grandeza; há uma presença que mal se nota.
Regra: não procure nela coragem oculta nem fúria de heroína. Macabéa não tem fundo secreto a revelar — e é exatamente disso, da existência rasa de quem nunca foi ensinada a querer, que Clarice quer falar.