MULHERES QUE CORREM COM OS LOBOS

VISÃO GERAL · A MULHER SELVAGEM E OS CONTOS COMO REMÉDIO DA ALMA

Clarissa Pinkola Estés

Há uma mulher dentro da mulher — instintiva, sábia, sem coleira. A cultura a domesticou: cortou-lhe o faro, baixou-lhe a voz, ensinou-a a sorrir quando devia rosnar. Mas a Mulher Selvagem não morre; ela hiberna sob o asfalto da rotina, esperando ser cantada de volta. Clarissa Pinkola Estés — psicanalista junguiana e cantadora — abre os velhos contos de fada como quem abre um corpo: dentro de cada um há um osso da alma feminina, e a instrução para reanimá-lo. Não se lê este livro. Recolhe-se dele a própria ossada.

A Mulher Selvagem

Não confunda: selvagem aqui quer dizer natural, não descontrolado — o lobo que sabe a hora de caçar e a hora de dormir, não a fera fora de si. É a natureza instintiva, criativa e antiga da psique feminina, aquela que a domesticação cultural ensinou a calar. Ela não foi morta. Foi enterrada viva, e respira devagar, à espera.

Modelo mental: a Mulher Selvagem é menos um eu a construir do que um sentido perdido a recuperar — pelo corpo, pelos sonhos e por aquela repulsa ou atração que vem antes do pensamento.

O Ciclo Vida-Morte-Vida

Tudo que vive — um amor, uma obra, uma fase de si — gira na mesma roda: nasce, floresce, definha, morre um pedaço e renasce mudado. A cultura nos ensinou a temer só a primeira metade da curva e a fugir da segunda. Mas recusar a morte de uma estação é abortar a primavera seguinte. Há que deixar morrer o que terminou.

Como aplicar: diante do que esfria e acaba, não pergunte como salvar — pergunte o que precisa morrer aqui para que o novo tenha lugar de nascer.

Juntar os Ossos

Quando você se sentir em cacos, espalhada pelo chão, há uma pergunta de La Loba a fazer: o que em mim é indestrutível e só está esperando para ser reanimado? Recolha esses ossos. Cante sobre eles — crie, nomeie, dê voz — e a carne volta. Nada de essencial em você se perdeu de verdade; apenas se dispersou e aguarda o canto.

Como aplicar: o cansaço fundo e a aridez por dentro não são sentença — são ossos no deserto, esperando alguém que saiba a melodia.

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