SETE SABERES

SABER 3: Ensinar a Condição Humana

Edgar Morin

Há uma pergunta que nenhuma matéria responde: o que é o ser humano? A biologia toma um pedaço, a psicologia outro, a história mais um — e o homem some, esfacelado entre as disciplinas que prometiam estudá-lo. Falta reuni-lo. Ensinar a condição humana é mostrar que somos, sem contradição, plenamente animais e plenamente culturais, uma só espécie e bilhões de rostos que jamais se repetem. Reconhecer-se no humano é o começo de toda fraternidade.

Uno e Múltiplo de Uma Vez

A humanidade é una — a mesma espécie, a mesma condição mortal, os mesmos medos e desejos sob qualquer céu — e múltipla — línguas, crenças, indivíduos irrepetíveis. As duas verdades ao mesmo tempo, sem que uma engula a outra. Quem só vê a unidade apaga as pessoas; quem só vê a diferença esquece que somos da mesma família.

Modelo mental: o estranho à sua frente é uma variação da mesmíssima condição que é a sua.

O Anel Sem Começo

Indivíduo ⇄ Sociedade ⇄ Espécie: nenhum vem antes, cada um produz e é produzido pelos outros, num círculo sem origem. Lá dentro gira outro anel: cérebro ⇄ mente ⇄ cultura — sem cérebro não há mente, e sem cultura o cérebro nunca acordaria como mente humana. Somos feitos do que fazemos.

Aforismo: a sociedade está inteira dentro de cada um de nós, e cada um de nós refaz a sociedade a cada gesto.

Sábio e Louco

O nome sapiens conta só metade. Somos também demens — capazes de delírio, de excesso, de paixão sem cálculo. Somos faber (que fabrica) e ludens (que brinca), prosaicos e poéticos. A contradição não é um defeito a corrigir: é o material de que somos feitos. Reduzir o humano a uma só dimensão é amputá-lo.

Para refletir: troque o 'ou... ou...' pelo 'e... e...' sempre que tentar definir uma pessoa.

O Que Aprendemos com o Saber 3

  • O humano é uno e múltiplo ao mesmo tempo — a mesma condição sob a infinita diversidade (unitas multiplex).
  • Indivíduo, sociedade e espécie formam um anel sem começo: nenhum é causa primeira dos outros.
  • Somos Homo complexus: razão e desrazão, trabalho e brincadeira, prosa e poesia, juntos.