STORY OS PRINCÍPIOS DO ROTEIRO

CAPÍTULO VII: A Substância da História

Robert McKee

Toda história é feita do mesmo material: a Lacuna. É o abismo que se rasga entre o que o protagonista espera do mundo, quando age atrás do seu desejo, e o que o mundo lhe devolve. Não há fumaça, efeito ou reviravolta que dispense esse vão. Sem Lacuna, há atividade na tela — não história.

A Lacuna (The Gap)

O protagonista age contando com um certo resultado. O mundo — dentro dele, entre ele e os íntimos, ou lá fora — responde de outro jeito, e abre o vão. Esse golpe o obriga a se recompor e a partir para uma ação nova e mais arriscada, agora à altura da realidade que ele subestimou.

Regra: nunca deixe uma ação dar exatamente certo, exceto na resolução final. Onde houver êxito limpo, não há história — abra a Lacuna.

O Protagonista

Um ser de vontade, com um desejo consciente (e quase sempre um inconsciente que o contradiz), com capacidade convincente de persegui-lo e ao menos uma chance de vencer. Como um míssil travado no alvo: não para enquanto não atingir o objeto ou for destruído na tentativa.

Sinal de alerta: se o personagem pode largar o desejo a qualquer momento sem custo, ele não é protagonista — é figurante com mais falas.

Desejo Consciente vs. Inconsciente

O desejo consciente é o que o personagem sabe que quer e declara: 'quero o dinheiro'. O inconsciente é uma necessidade mais funda e quase sempre contrária, que o move sem que ele perceba: 'quero ser punido'. É o choque entre os dois que produz o conflito interno mais devastador.

Como aplicar: o atrito entre o desejo declarado e a necessidade que o trai por dentro é o que dá ao personagem mais de uma dimensão.

Empatia vs. Simpatia

Simpatia é ser querido — 'gosto dele'. Empatia é reconhecimento — 'eu o entendo, há algo dele em mim'. O protagonista precisa de empatia; de simpatia, não. Macbeth é um assassino, e ainda assim vivemos sua queda por dentro.

Regra: sem empatia a história morre na poltrona. A plateia tem de farejar, no protagonista, uma humanidade que também é a sua.

Lições-Chave do Capítulo VII

  • A história nasce no vão entre o que o personagem espera e o que o mundo de fato lhe entrega.
  • Sem empatia não há história — a plateia precisa reconhecer-se no protagonista, ainda que ele seja um Macbeth.
  • O desejo tem de ser forte o bastante para empurrar o protagonista ao limite do humano.
  • Jamais o deixe vencer de primeira: ação → reação inesperada (a Lacuna) → ação nova e mais difícil.