INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

CAPÍTULO 7: Parte 6 — A Grande Marcha (O Kitsch)

Milan Kundera

O centro filosófico do romance. Kundera interrompe o enredo para seu ensaio mais célebre sobre o kitsch — a recusa estética e moral de tudo que na existência é inaceitável. A Grande Marcha é o kitsch feito política.

O Kitsch e a Segunda Lágrima

Kitsch = a recusa da morte, do ridículo, do acaso — o 'biombo que esconde a morte'. Sua fórmula: a segunda lágrima. A primeira ('que comovente, as crianças na grama!') é humana. A segunda ('que comovente, comover-me junto com toda a humanidade!') é o kitsch — a comoção com a própria comoção.

Teste: na próxima vez que sentir uma emoção 'grande' em público — num desfile, numa causa, numa campanha —, pergunte: estou sentindo pelo objeto da emoção, ou estou me comovendo com minha própria comoção?

A Ditadura do Coração

O kitsch exige unanimidade emocional e expulsa a dúvida, a ironia, o individual. 'No reino do kitsch totalitário, as respostas são dadas de antemão e excluem qualquer pergunta.' Por isso todo totalitarismo é kitsch — e o kitsch totalitário bane tudo que destoa do desfile.

Sinal de alerta: quando um grupo exige que você sinta o que 'todos' sentem, sob pena de exclusão, você está diante da ditadura do coração — seja ela comunista, democrática ou familiar.

O Kitsch É Universal

Há kitsch comunista, fascista, católico e democrático. 'O kitsch é parte da condição humana' — ninguém escapa por inteiro. Até Sabina, que combate o kitsch, tem o seu: a imagem da casa iluminada à noite, a família feliz. Combatê-lo é tarefa sem fim.

Para refletir: qual é o kitsch particular que você cultiva — a imagem de realização que 'não pode faltar' na sua vida e que você recusa examinar de perto?

Lições-Chave do Capítulo 7

  • Kitsch é a mentira que nega a morte, o corpo e o acaso para afirmar que tudo é belo e tem sentido.
  • A segunda lágrima é o teste: emoção que se admira a si mesma e exige consenso já virou kitsch.
  • Todo totalitarismo é kitsch — mas o kitsch é universal: combatê-lo é tarefa sem fim.