MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO III: A UNESCO, A EDUCAÇÃO E O CONTROLE PSICOLÓGICO

Pascal Bernardin

Este capítulo foca no papel determinante da UNESCO e de outras organizações internacionais (como o Conselho da Europa e a OCDE) na reestruturação dos sistemas educacionais em nível global. O autor demonstra, através de vasta documentação oficial dessas próprias agências, que a educação deixou de ser vista como um meio de transmissão de conhecimentos acadêmicos e passou a ser encarada primordialmente como um instrumento de engenharia social e condicionamento psicológico, visando forjar uma nova "ética global" e moldar atitudes conformes aos objetivos políticos dessas entidades.

Do Pretexto ao Geral

O documento fundador da Unesco (1964) chama-se "A Modificação das Atitudes" — não "das atitudes intergrupos". As técnicas, desenvolvidas sob o álibi antirracista, são declaradas aplicáveis a atitudes políticas, econômicas, sociais, ecológicas e éticas, "ao arbítrio dos interesses dos governantes".

Como aplicar: ao avaliar um programa educacional, examine o dispositivo que ele instala — não o objetivo nobre declarado. O dispositivo sobrevive ao pretexto.

"Os corolários desses resultados, para a modificação das atitudes no plano da vida social, são evidentes." (Davis/Unesco, 1964)

Reconversão de Comunidades

A estratégia em larga escala visa à "reconversão" de comunidades inteiras, modificando "as normas e as práticas estabelecidas" — recrutando políticos, líderes comunitários, rádio, imprensa e "formadores de opinião" para "provocar as mudanças na comunidade inteira".

Sinal de alerta: quando uma "campanha de conscientização" mobiliza simultaneamente mídia, lideranças e escola, o alvo é a norma da comunidade — não a informação.

"Possuímos conhecimentos cuja aplicação generalizada nos permite atingir nossos objetivos... a questão que se coloca é a de saber como se podem aplicar esses métodos em larga escala." (Unesco, p. 48-49)

Reeducação em Liberdade

Kurt Lewin, pioneiro da dinâmica de grupos, define a reeducação como "o estabelecimento de um novo superego" — eficaz somente quando "a nova série de valores aparecer ao indivíduo como algo que ele tenha escolhido livremente". A liberdade percebida é a condição da inculcação.

Como aplicar: desconfie do método cujo sucesso depende de a adesão parecer espontânea — a "atmosfera de liberdade" é parte da técnica, não respeito à autonomia.

"É de vontade própria que o indivíduo participa das sessões... ele deve sentir-se livre para expressar suas críticas, em segurança afetiva e livre de qualquer pressão." (Lewin, citado pela Unesco)

A Família como Obstáculo

O documento é explícito: "para conduzir as crianças... necessário seria começar pela modificação de seus pais". Os grupos de pares formados na escola devem tornar-se "grupos de referência" que substituem a norma da célula familiar e dirimem o "atraso cultural".

Sinal de alerta: quando a influência dos colegas cresce e a transmissão familiar definha, não é acaso — é o resultado buscado pelo desenho do sistema.

"As diversas formas de educação extraescolar, particularmente os programas educativos difundidos pela mídia, poderiam contribuir para a neutralização da transmissão 'familiar' dos preconceitos." (Unesco)

A Escala de Tumin: 8 Deslocamentos

A "educação" produziria deslocamentos do nacionalismo ao internacionalismo, do tradicionalismo ao materialismo, do senso comum à "ciência", do castigo à recuperação, da violência à legalidade, da severidade à tolerância, do sistema patriarcal à igualdade democrática e da passividade ao "ímpeto criador" — uma "larga e profunda modificação das atitudes sociais em geral".

Correção de Bernardin: não é a educação que leva ao mundialismo e à permissividade — é a educação revolucionária. Os séculos passados tiveram eruditos sem esses "deslocamentos".

O próprio resumo confessa o alcance: dificilmente uma educação destinada apenas a "aperfeiçoar as relações intergrupos" provocaria mudanças em política, filosofia social, regime penal, relações conjugais e lazer.

Os 4 Instrumentos de Ação Total

Para agir "sobre o conjunto de uma sociedade": (1) declarações públicas de altas personalidades; (2) medidas legislativas; (3) forças econômicas; (4) meios de comunicação. E a questão decisiva, admitida pelo próprio documento: "trata-se de saber quem dispõe desses meios".

Como aplicar: quando os quatro canais convergem na mesma mensagem, você está diante de um programa de modificação de atitudes — avalie quem o coordena.

"Importa examinar a questão relativa à intenção que orienta o emprego dos meios de comunicação... tal questão não pode ser negligenciada indefinidamente." (Unesco)

Lições-Chave

  • Desde 1964 a Unesco publica metodologia explícita de modificação de atitudes em escala internacional — a tese é documental, não especulativa.
  • A escola é o vetor privilegiado porque o processo educacional é "um fenômeno altamente complexo de dinâmica de grupo": o grupo de pares substitui a família como referência.
  • Se as técnicas vencem o mais enraizado (preconceito racial e religioso), vencerão com mais facilidade atitudes políticas, econômicas e éticas — daí a "mais viva inquietação" do autor.
  • A formação dos professores deve incluir Psicodinâmica, dinâmica de grupo e Sociologia, com "transformações profundas" e "competências de ordem política" para os dirigentes (Watson).
  • A ressalva "as opiniões são do autor" é técnica: a organização escolhe, financia e difunde — a influência opera pela seleção de quem fala.