MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO IV: A REDEFINIÇÃO DO PAPEL DA ESCOLA E O ENSINO MULTIDIMENSIONAL

Pascal Bernardin

Neste capítulo, Pascal Bernardin aprofunda a análise de como a própria razão de ser da escola foi subvertida. A instrução clássica baseada em conteúdos (o "ensino cognitivo") é ativamente rebaixada e desvalorizada pelas organizações internacionais em favor do "ensino multidimensional". A escola redefine-se como uma instituição totalizante que deve moldar todas as dimensões da criança – social, afetiva, moral, física e política – com o intuito de prepará-la para a "Nova Ordem Mundial". Essa expansão do escopo da escola invade brutalmente a esfera de competência histórica da família.

Ensino Multidimensional: Os 2 Braços

A escola redefinida oferece um ensino "intelectual, mas sobretudo ético, cultural, social, comportamental, político e espiritual". Dois componentes principais: (1) ensino ético — modificar valores, atitudes e comportamentos; (2) ensino multicultural, depois intercultural — rematar a revolução psicológica mediante uma revolução cultural.

Como aplicar: quando um currículo cobra do professor "relações sexuais, ideologias, enfermidades e visões do futuro", a queda do ensino sólido não é falha — é a consequência aritmética do novo escopo.

"O educador do futuro deverá trabalhar muito mais para estabelecer e desenvolver relações humanas e uma rede social em sua classe, abstendo-se da orientação mediante o ensino exclusivamente intelectual." (Unesco, simpósio de Pequim, 1989)

Código de Série vs. Código Integrado

No código de série (Bernstein), o ensino se funda em programas nacionais e disciplinas universitárias — legitimidade pelo saber. No código integrado, a "comunidade de base" define normas localmente, o centro é a experiência do aluno, e os critérios de avaliação "se obscurecem": a seleção desaparece, as normas são "relativizadas".

Sinal de alerta: módulos nos liceus e ciclos no primário são, por confissão de Legrand, a implementação do código integrado na França.

"As disciplinas universitárias perdem assim sua situação dominante e tornam-se auxiliares instrumentais de uma abordagem interdisciplinar." (Louis Legrand)

O Novo Papel do Professor

A Unesco redefine o docente em três pontos: (a) não mais "transmissor do saber", mas "educador e conselheiro"; (b) responsabilidades fora da escola e do currículo — aconselhar alunos e pais, organizar o lazer, preparar para a vida familiar; (c) atuar como "agente de desenvolvimento e de mudança" na comunidade.

Detalhe técnico: as análises do papel docente devem ser "conduzidas com a participação dos próprios professores" — aplicação direta da técnica de engajamento.

"Ele é um educador e um conselheiro... e não uma simples fonte de informações ou um transmissor do saber." (Unesco)

Multiplicar as Formas de Excelência

Para "assegurar o êxito de todos", a Unesco propõe romper com a concepção "elitista" que privilegia o acadêmico e modificar os objetivos e critérios de avaliação — fazer todo aluno "encontrar sucesso numa dada atividade" (esporte, arte, serviço comunitário) para que o fracasso no exame não exclua.

Tradução: não se eleva o nível de todos — rebaixa-se o critério para que a queda do nível não apareça. O "sucesso" vira instrumento de adesão, não medida de saber.

"É preciso romper com uma concepção elitista... que privilegia os aspectos mais acadêmicos de ensino." (Unesco, colóquio de Lisboa, 1991)

Eficácia = Mudança de Comportamento

A Declaração Mundial de Jomtien (1990) fixa que a "educação fundamental" — definida como aquisição de "conhecimentos, competências, atitudes e valores" — terá sua eficácia "avaliada em função da modificação dos comportamentos", mobilizando "todos os canais de educação — inclusive a mídia".

Como aplicar: leia as métricas de qualquer reforma. Se o indicador de sucesso é comportamental, o programa é de condicionamento — qualquer que seja o nome no rótulo.

"...sendo a eficácia das ações avaliada em função da modificação dos comportamentos." (Declaração Mundial sobre Educação para Todos, art. 5-6)

Pais Tratados como Problema

Num país africano, os pais exigiram a volta do exame tradicional cognitivo ao perceber que a "avaliação multidimensional" mascarava o fracasso. Resposta da Unesco: é preciso "sustentar a ação dos pais" com "informação permanente e atividades de formação", pois sua intervenção "num âmbito que elas não dominam pode se revelar nefasta".

Sinal de alerta: quando os pais que discordam viram alvo de "formação", o sistema os trata como objeto de modificação de atitudes — não como interlocutores.

O aviltamento da escola é antidemocrático: "priva as camadas mais humildes de toda perspectiva de emancipação intelectual e social", enquanto as camadas superiores têm meios próprios de instruir seus filhos.

Lições-Chave

  • A redefinição da escola é oficial e documentada: da instrução à modificação de comportamentos, com eficácia medida comportamentalmente.
  • O ensino multidimensional tem dois braços que estruturam os capítulos seguintes: revolução ética (cap. V) e revolução cultural (cap. VI).
  • O professor é reposicionado como terapeuta e agente de mudança comunitário — não como sábio que transmite um saber.
  • A "democratização" é retórica: o resultado real penaliza os mais pobres e preserva as vantagens de quem pode instruir os filhos por conta própria.
  • A resistência dos pais é antecipada pelo sistema e neutralizada com "informação permanente" — o desacordo é tratado como déficit de formação.