MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO IV: A Redefinição do Papel da Escola

Pascal Bernardin

De posse do arsenal, a reforma redefine a própria razão de ser da escola. Do ensino do intelecto passa-se ao “ensino multidimensional” — ético, cultural, comportamental, político —, cuja eficácia, declara a Conferência de Jomtien, há de ser medida “em função da modificação dos comportamentos”. Mude o que se afere e tudo se reorienta. A queda do nível que se seguirá não é descuido nem azar: é o preço, pago de bom grado, de uma escola que trocou de ofício.

A Escola Muda de Ofício

Já não se transmite saber: “forma-se a pessoa inteira”, e a eficácia do ensino passa a ser “avaliada em função da modificação dos comportamentos” (Jomtien). Dois braços empurram o projeto — a revolução ética e a cultural. No instante em que o critério vira “mudar a conduta”, deixou de haver instrução: há engenharia social com giz na mão.

Modelo mental: “educação multidimensional” e “saber-ser” são senhas de avaliação de atitudes — onde elas aparecem, leia “educar” como “reeducar”.

Apagar a Régua

Bernstein contrapõe o código de série — programa nacional, disciplinas, mérito — ao código integrado, em que a comunidade local define a norma, “os critérios de avaliação se obscurecem” e a seleção evapora. Módulos e ciclos são esse código posto em prática. Quebrar o termômetro não cura a febre: só faz a febre deixar de aparecer no mostrador. O fracasso do ensino não cognitivo some porque ninguém mais o pode medir.

Sinal de alerta: critérios que se “obscurecem” de propósito não são tolerância pedagógica — são a régua sendo apagada para que o fracasso não tenha onde se registrar.

O Mestre Vira Conselheiro

A Unesco reposiciona o docente: não mais “transmissor do saber”, e sim “educador e conselheiro”, encarregado da vida familiar, do lazer, do aconselhamento dos pais — um “agente de mudança”. Quem precisa dialogar sobre tudo não tem hora para ensinar nada com solidez. O esvaziamento da matéria não é falha do sistema: é o sistema funcionando como foi traçado.

Como aplicar: o rebaixamento castiga os pobres — quem tem dinheiro instrui o filho por fora; a “democratização” fica de retórica para o discurso.

Lições-Chave do Capítulo IV

  • A escola passa, por documento oficial, da instrução à modificação dos comportamentos.
  • O “código integrado” obscurece os critérios e dissolve a seleção — a queda do nível é deliberada, não acidental.
  • O professor é redefinido como terapeuta e agente de mudança, e não como quem transmite o saber.