MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO VII: REESCREVER A HISTÓRIA

Pascal Bernardin

A educação para a paz e o interculturalismo exigem a reescritura da história — manuais "de história universal" redigidos por comitês internacionais, eliminando conflitos e elementos contrários à ideologia oficial: um "projeto essencialmente totalitário" que amputa as raízes das gerações futuras.

Os Manuais Supranacionais

Proposta formal da 4ª Conferência dos Ministros da Educação (Unesco, 1988): elaborar "um manual de história geral da Europa e um manual de história universal", com revisão dos manuais nacionais para "definir orientações comuns".

Anti-padrão: tratar a revisão de manuais como cooperação técnica esconde que é definição centralizada do que pode ser lembrado.

O Palimpsesto Orwelliano

O processo tem um modelo literário explícito: a história raspada e reescrita "tantas vezes quantas fossem necessárias". Controlar o passado é controlar o presente.

Modelo mental: sem referência estável ao passado, o indivíduo fica manipulável à vontade.

"Toda a história era um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fossem necessárias." (1984, Orwell)

Objetividade Subordinada à Atitude

O critério do ensino de história deixa de ser a verdade e passa a ser a atitude produzida no aluno: "a simples apresentação objetiva dos fatos, sendo insuficiente para produzir a atitude desejada...".

Tell: quando a história é avaliada pela "atitude" que gera, virou instrumento de modificação de atitudes — o mesmo dispositivo dos capítulos I–III.

"A simples apresentação objetiva dos fatos, sendo, de resto, insuficiente para produzir a atitude desejada..." (Unesco)

O "Aprender a Aprender"

Sob o elogio das "sociedades aprendizes" esconde-se a função real: criar "uma mentalidade privada de qualquer referência estável", aberta à mudança e à moda, "de maneira que a mera noção de verdade seja algo estranho e facilmente manipulável".

Como aplicar: o relativismo histórico não é efeito colateral — é a infraestrutura da manipulação.

A Mutilação Psicológica

Amputar as raízes históricas impossibilita "toda verdadeira compreensão política". A fórmula "adversários de ontem, parceiros de hoje" justifica eliminar dos manuais tudo "o que possa haver de desconfiança".

Sinal de alerta: a história "curada pela diplomacia" entrega gerações sem as ferramentas para entender o presente.

Lições-Chave

  • A reescritura da história é proposta formal de conferências ministeriais — não inferência do autor.
  • O critério passa a ser a atitude produzida no aluno, não a verdade factual.
  • "Aprender a aprender" fabrica mentalidades sem referência estável — matéria-prima da manipulação.
  • O paralelo com Orwell é estrutural: controle do passado = controle do presente.