MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO VII: Reescrever a História

Pascal Bernardin

O terceiro braço completa a obra: para produzir o homem novo, sem pátria e sem desconfiança, é preciso lhe tirar a memória. A educação para a paz e o interculturalismo pedem uma história reescrita — manuais supranacionais, lavrados por comitês internacionais, dos quais se varrem os conflitos e tudo o que contraria a doutrina oficial. Bernardin não suaviza o nome: “projeto essencialmente totalitário”, que amputa das gerações futuras as raízes e a própria capacidade de entender a política.

O Manual Sem Pátria

A Conferência dos Ministros da Educação (Unesco, 1988) propõe um “manual de história geral da Europa” e outro “de história universal”, com comitês a fixar “orientações comuns”. Não é cooperação acadêmica: é uma só mão decidindo, para todos, o que pode ser lembrado. E a fórmula “adversários de ontem, parceiros de hoje” serve de autorização para limpar das páginas a desconfiança incômoda.

Como aplicar: leia “revisão internacional de manuais” como curadoria diplomática da memória coletiva — e pergunte quem assina o que entra e o que desaparece.

A Atitude Acima do Fato

O documento oficial diz, e a frase é uma confissão: “a simples apresentação objetiva dos fatos, sendo insuficiente para produzir a atitude desejada…”. A partir daí, o critério já não é a verdade, é a atitude que a narrativa gera — “com utilização das ciências sociais para reforçar o impacto”. A história deixou de ser relato do passado para virar técnica de modificação de atitudes.

Sinal de alerta: “a objetividade é insuficiente para produzir a atitude desejada” é a frase em que a verdade se ajoelha diante do efeito pretendido.

O Palimpsesto de Orwell

“Aprender a aprender” e “sociedade aprendiz” soam modernos; a função é fabricar “uma mentalidade privada de qualquer referência estável… de modo que a noção de verdade seja algo estranho e manipulável”. Bernardin chama Orwell: a história como “palimpsesto, raspado e reescrito” a cada nova ordem. Quem não tem chão sob os pés vai para onde o empurrarem.

Modelo mental: o relativismo histórico não é abertura de espírito — é a infraestrutura da manipulação. Quem controla o passado controla o presente.

Lições-Chave do Capítulo VII

  • Reescrever a história é proposta formal de conferências ministeriais — não suposição do crítico.
  • O critério passa a ser a atitude produzida no aluno, e não mais a verdade dos fatos.
  • “Aprender a aprender” fabrica mentes sem referência estável — a matéria-prima ideal da manipulação.