MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO XI: A Europa

Pascal Bernardin

OCDE, Conselho da Europa e Unesco não têm poder de mandar — e mandam mesmo assim. Sem um decreto executivo, moldam as instituições comunitárias por dentro: resoluções do Conselho, programas da Comissão, votos do Parlamento repetem, palavra por palavra, a agenda psicopedagógica. E o objetivo confessado é unificar os sistemas escolares da Europa como “prelúdio de uma integração mundial”. A harmonização é o ensaio geral da padronização do planeta.

O Cavalo de Troia

Sob a inscrição irrecusável de “luta contra o insucesso escolar” (1989) entram, juntos no ventre do cavalo, a dimensão multicultural, a pré-escola reforçada, a “renovação” da avaliação, as pedagogias diferenciadas, a abertura à comunidade. Cada “remédio” é uma peça da reforma. Leia todo programa de “combate ao fracasso” item por item — a bandeira nobre é só a embalagem do dispositivo.

Como aplicar: quando o título é consensual (paz, insucesso, direitos), vá direto ao conteúdo — o álibi de hoje legitima as técnicas que se estenderão amanhã.

Governar por Capilaridade

Instituições “sem poder executivo” governam por resolução, programa e dinheiro: as reformas nacionais devem caminhar “dentro de um quadro comum europeu”, e a harmonização precede a uniformização mundial. Até a formação continuada é refeita para produzir “gestores de inovação”, não especialistas. Não vigie as competências formais; vigie o vocabulário — é por ele que a agenda se infiltra.

Modelo mental: documentos “não vinculantes” são o solo onde a legislação germina depois — desprezá-los é perder de vista a porta por onde tudo entra.

“Implicar” os Pais

O Parlamento Europeu decreta que os sistemas “devem essencialmente visar a implicar os pais na educação das crianças”. Bernardin traduz: implicar não é ouvir, é engajar — para diluir a “resistência à mudança”. E vem ainda o “acompanhamento dos jovens” depois da escola, que ele nomeia sem rodeio: “um verdadeiro controle psicológico”. O “interesse dos pais” aqui não lhes dá voz; rouba-lhes a recusa.

Sinal de alerta: quando pais e professores são “implicados” ou “consultados”, leia redução de resistência pela participação — nunca partilha real de poder.

Lições-Chave do Capítulo XI

  • A agenda entra na Europa comunitária pela porta consensual do “insucesso escolar”.
  • Instituições sem poder executivo governam por capilaridade: resoluções, programas e financiamento.
  • “Implicar os pais” é engajá-los para diluir a resistência — e o controle se estende para além dos muros da escola.