MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO XIV: O TOTALITARISMO PSICOPEDAGÓGICO

Pascal Bernardin

Neste penúltimo capítulo, Bernardin eleva sua tese à conclusão lógica: as metodologias de pedagogia moderna não são apenas reformas educacionais inofensivas, mas compõem um sistema de "Totalitarismo Psicopedagógico". Ao contrário dos totalitarismos brutais do século XX (nazismo e comunismo soviético clássico), que se impunham pela força, o novo totalitarismo (de viés hegeliano e globalista) age de maneira doce, invisível e indolor, usando a psicologia (o controle comportamental "não aversivo" de B.F. Skinner) para reescrever o interior do ser humano.

Mudou a Estratégia, Não o Objetivo

A revolução psicopedagógica é "essencialmente totalitária": nascida nos meios revolucionários que, com a perestroika, "mudaram, não de objetivo, mas de estratégia". Busca "submeter o indivíduo ao Estado, tanto em seu comportamento quanto em seu psiquismo e em seu próprio ser". A revolução psicológica "será seguida, inelutavelmente, de uma revolução social".

Como aplicar: não confunda a queda do muro com o fim do projeto. A mudança de método (da força à psicologia) preserva o alvo: o ser interior.

"Insensivelmente, esses novos centros de decisão estabelecem uma ditadura psicológica mundial que nada deixa a desejar ao Admirável Mundo Novo; tampouco a 1984."

O Modelo de Adulto Ideal

"Toda a taxonomia dos objetivos pedagógicos subentende um modelo de adulto ideal" (Bloom, via Unesco). Bertrand Russell: "precisamos ter uma concepção do tipo de pessoa que desejamos formar". A pedagogia parte do produto final desejado — e raramente admite quem o escolheu.

Como aplicar: teste qualquer "objetivo pedagógico" perguntando: que modelo de homem ele pressupõe, e quem o decidiu — sem debate público?

"É preciso alguma coragem, nos dias de hoje, para admitir que se escolheu este ou aquele dentre os inumeráveis modelos que nos são propostos." (Unesco)

Educação Permanente: a Rede Total

"Todo ano, todo mês, todo dia, do berço ao túmulo, todo mundo aprenderá... em seu domicílio, na escola, na usina, na fazenda, no hospital, no escritório, no templo, no cinema, no seu sindicato, no seu partido político, no seu clube" (Unesco). Nenhum espaço fora do dispositivo; os adultos estão expressamente incluídos.

Como aplicar: leia "educação permanente" e "sociedade aprendiz" como reeducação contínua estendida à vida inteira — não como oportunidade.

"A reforma psicológica e a lavagem cerebral em escala mundial não poderiam deixar ninguém ileso" — crianças e adultos, dentro e fora da escola.

"Quem Controlar a Educação..."

Um conselheiro de Estado chinês declara na Unesco: "aquele que controlar a educação terá a iniciativa" no século XXI; "a estrutura da educação será mais flexível e diversificada, formando uma rede que se estende por todo o conjunto da sociedade".

Modelo mental: a lista de mobilizados (até a defesa e os organismos religiosos) mede a ambição — um regime, não uma política setorial.

O Plano Integrado da Unesco (1990-1995) dirige-se inclusive à formação de "magistrados, médicos, oficiais de polícia" — as categorias que sustentam o Estado de direito.

Mobilização Total da Sociedade

O Quadro de Ação de Jomtien manda mobilizar "organismos familiares e comunitários, ONGs, sindicatos, empregadores, a mídia, partidos políticos, cooperativas, universidades, organismos religiosos" — além dos ministérios do trabalho, agricultura, saúde, informação, comércio e defesa. O dispositivo não se limita à escola: opera na empresa (RH), na mídia e na sociedade civil inteira.

Sinal de alerta: quando um "plano de ação educacional" arrola a defesa e as igrejas entre seus executores, o alvo é a sociedade inteira — não o sistema escolar.

Vetores além da escola: mídia, administração de empresas e gestão de recursos humanos, setores organizados da sociedade civil "e mesmo as instituições religiosas, que se busca incluir no processo".

A Reescrita do Ser Interior

A meta última é "atentar contra o seu ser" — reescrever o interior do indivíduo. Por isso o dispositivo precisa ser permanente (no tempo: a vida inteira) e total (no espaço: todas as instituições). É o ponto onde a pedagogia deixa de instruir e passa a fabricar pessoas.

Como aplicar: o antídoto começa por nomear o processo. O controle invisível só se torna combatível quando é desmascarado como ditadura psicológica (cap. XV).

Bernardin reserva ao capítulo final (Conclusão) o programa de resposta: desmascarar, conscientizar e, só então, opor.

Lições-Chave

  • O totalitarismo psicopedagógico é a forma acabada do projeto: controle do comportamento, do psiquismo e do próprio ser.
  • Toda pedagogia orientada a "objetivos" pressupõe um modelo de homem escolhido por alguém — sem debate público.
  • A educação permanente universaliza o dispositivo no tempo (vida inteira) e no espaço (todas as instituições).
  • As categorias que sustentam o Estado de direito — magistrados, médicos, polícia — recebem formação específica.
  • A mobilização planejada abarca a sociedade civil inteira, incluindo a defesa e as instituições religiosas.