MAQUIAVEL PEDAGOGO

CAPÍTULO XIV: O Totalitarismo Psicopedagógico

Pascal Bernardin

Bernardin recusa o eufemismo e nomeia a coisa: isto é totalitarismo. Não o das botas e dos campos, mas um que vai mais fundo — busca “submeter o indivíduo ao Estado, tanto em seu comportamento quanto em seu psiquismo e em seu próprio ser”. E não se contenta com a sala de aula: o dispositivo se espraia “do berço ao túmulo”, sobre a vida inteira e sobre todas as instituições. O regime antigo prendia o corpo; este reclama a alma.

O Molde do Homem Ideal

Toda taxonomia de objetivos pedagógicos “subentende um modelo de adulto ideal… é preciso coragem para admitir que se escolheu este ou aquele”; Russell o diz cru: “precisamos ter uma concepção do tipo de pessoa que desejamos formar”. Não existe objetivo educacional neutro — todo currículo carrega, escondido, um modelo de homem. E a pergunta proibida é simples: quem o escolheu, e por que sem nos consultar?

Modelo mental: teste qualquer meta educacional perguntando que adulto ideal ela pressupõe — e quem se arrogou a autoridade de defini-lo.

Do Berço ao Túmulo

A “educação permanente” da Unesco é uma rede sem brecha: “todo ano, todo mês, todo dia, do berço ao túmulo, todo mundo aprenderá… em casa, na escola, na usina, no hospital, no templo, no cinema, no sindicato, no partido”. Não sobra um só recanto da vida fora da malha. “Sociedade aprendiz” não promete oportunidade: anuncia reeducação sem trégua nem aposentadoria.

Sinal de alerta: “educação permanente” e “do berço ao túmulo” não descrevem acesso ao saber — descrevem o dispositivo escolar estendido a cada hora da existência.

A Mobilização de Tudo

“Quem controlar a educação terá a iniciativa”, advertiu um conselheiro chinês na Unesco. O Quadro de Ação de Jomtien convoca ONGs, sindicatos, patrões, mídia, partidos, universidades, igrejas e ministérios — do trabalho à saúde, do comércio à defesa. O tamanho da lista mede a ambição: isto não é uma política setorial, é o desenho de um regime.

Como aplicar: o mesmo aparato opera na empresa (pelo RH) e na imprensa; o adulto não está a salvo — magistrados, médicos e policiais figuram entre os alvos nomeados.

Lições-Chave do Capítulo XIV

  • O totalitarismo psicopedagógico reclama o comportamento, o psiquismo e o próprio ser — não só a obediência.
  • Toda pedagogia por objetivos pressupõe um modelo de homem, escolhido por alguém e sem debate público.
  • A educação permanente universaliza o dispositivo no tempo (a vida toda) e no espaço (todas as instituições).