O MUNDO DE SOFIA

CAPÍTULO 6: Spinoza e os Empiristas

Jostein Gaarder

Contra as ideias inatas de Descartes, os empiristas britânicos cravam a aposta oposta: nada entra na mente que não tenha passado, antes, pelos sentidos. E Hume leva o palpite ao extremo, dissolvendo até o 'eu' e a causalidade — foi ele, dirá Kant, que o 'acordou do sono dogmático'. Spinoza, por uma trilha à parte, faz o gesto mais ousado de todos: funde Deus e Natureza numa só palavra.

Deus sive Natura

Spinoza tem uma intuição de tirar o fôlego: Deus e a Natureza são a mesma e única realidade infinita. Não há relojoeiro lá fora que montou o mundo e foi-se embora; nós somos pedaços do próprio Deus-Natureza, ondas de um único mar. Tudo está preso a tudo, num só tecido sem costura nem avesso.

Modelo mental: olhe a sua vida 'sob a perspectiva da eternidade'. Vista lá do alto, na escala do todo infinito, boa parte dos seus dramas perde o peso.

Folha em Branco e 'Ser é Ser Percebido'

Locke diz que nascemos como uma folha em branco, e que é a vida que vem nos escrevendo, linha a linha. Berkeley vai mais fundo e solta uma ideia de tirar o chão: existir, para uma coisa, seria nada mais que ser percebido por alguém. Tire o observador e a matéria evapora — sobram só ideias flutuando no ar.

A pista: não solte esse 'ser é ser percebido'. É a sementinha filosófica da grande virada do livro — Sofia descobrindo que só existe porque alguém a está imaginando.

Hume Dissolve a Causalidade

Hume, o cético de boa pergunta, encosta o dedo na ferida: você já viu, com os próprios olhos, a 'causa' empurrar o 'efeito'? Nunca. Você só viu uma bola bater na outra mil vezes e se acostumou a esperar o de sempre. A lei que parecia de ferro talvez não passe de um hábito teimoso da nossa cabeça.

Para refletir: aquilo que você chama de 'regra que nunca falha' não seria, lá no fundo, só o costume de ter visto a mesma coisa se repetir até hoje?

Lições-Chave do Capítulo 6

  • Para os empiristas, todo conhecimento brota da experiência — pela porta dos sentidos.
  • Hume dissolve o eu e a causalidade — à razão sobra apenas o velho hábito.
  • Berkeley: 'existir é ser percebido' — a semente filosófica da virada meta do livro.