O PRÍNCIPE

CAPÍTULO 8: Reputação, Ministros e Lisonjeiros

Nicolau Maquiavel

O poder também se sustenta pela reputação e pela qualidade de quem cerca o príncipe. O primeiro juízo que se faz da cabeça de um homem é olhar os homens que ele tem à volta — e o veneno mais comum da corte tem nome: o lisonjeiro.

Reputação por Grandes Feitos

Nada faz um príncipe estimado como as grandes empresas e os exemplos raros da própria pessoa. E o segredo é não ser nunca neutro: declarar-se sem rodeios amigo de um ou inimigo do outro rende sempre mais que a hesitação. O neutro não agrada ao vencedor, que o despreza por não ter arriscado nada, nem ao vencido, que o abandona por não tê-lo socorrido — e acaba presa dos dois.

Prática: tome lado nos conflitos que importam. Quem fica em cima do muro é a primeira coisa que os dois lados derrubam.

Bons Ministros

A escolha dos ministros é a primeira prova do juízo de um príncipe. O bom ministro é o que pensa mais no Estado que no próprio bolso; o que só pensa em si nunca é de confiar. Para prendê-lo, honre-o, enriqueça-o, divida com ele a glória e a carga — de modo que ele sinta que não pode existir sem você, e que tanta honra o faça temer toda mudança.

Modelo mental: o braço direito só é leal quando o sucesso dele depende, inteiro, do seu. Faça-o rico o bastante para não cobiçar mais, e dependente o bastante para não ousar.

Blinde-se dos Lisonjeiros

As cortes fervem de aduladores, e os homens se contentam tanto consigo que dificilmente escapam dessa peste. A única defesa que não te torna desprezado é escolher poucos sábios e só a eles dar a liberdade de te dizer a verdade — mas apenas no que você perguntar, e em mais nada. Ouça-os com paciência, e depois decida sozinho, à sua maneira, em silêncio.

Sinal de alerta: quem escuta todos sobre tudo perde o respeito e vira catavento; quem não escuta ninguém vai cego para o precipício.

Lições-Chave do Capítulo 8

  • Faça reputação com grandes feitos e lados firmes: o neutro vira presa dos dois adversários.
  • Escolha o ministro que pensa no Estado, não no bolso — e prenda-o pela honra e pela dependência.
  • Contra a lisonja: dê a poucos sábios a liberdade da verdade, só quando perguntados — e decida sozinho.