STORY McKEE

CAPÍTULO XVII: Personagem

Robert McKee

Um personagem não é um ser humano — é uma obra de arte, “uma metáfora da natureza humana”, mais clara e conhecível que qualquer pessoa real. O escritor é o “Verme da Mente” medieval: cava uma natureza e desenha o único evento que a forçará a viver até o limite.

Personagem Verdadeiro pelo Desejo

“O personagem verdadeiro só se expressa pela escolha em dilema.” A chave é o desejo: pergunte o que ele quer? agora? em breve? no geral? consciente? inconscientemente? Com respostas claras vem o domínio do papel.

Como aplicar: pressão revela, escolha define. Pense o motivo a fundo — depois deixe mistério, espaço para a experiência da plateia.

Dimensão = Contradição

Uma dimensão é uma contradição consistente — dentro do personagem profundo (Macbeth: ambição vs. culpa) ou entre caracterização e profundidade (um ladrão charmoso). Traços não são dimensões (perito em finanças + faixa-preta + saxofonista = “plano como uma mesa”).

Regra: o protagonista deve ser o personagem mais dimensional do elenco — senão o Centro do Bem (o foco de empatia da plateia) se desloca (Blade Runner).

O Design do Elenco (Sistema Solar)

O protagonista é o sol; os coadjuvantes são planetas; os figurantes, satélites — todos existem pela relação que travam com o protagonista, cada um desenhado para revelar uma contradição diferente (A provoca seu cinismo, B sua esperança, C sua coragem).

Cuidado: figurantes são deliberadamente planos, mas não enfadonhos — um traço bem observado, nada mais.

O Personagem Cômico

Atribua uma mania que o personagem não consegue ver (o Avarento de Molière; a ilusão de detetive perfeito de Clouseau). No instante em que ele enxerga a própria obsessão, a comédia acaba.

Modelo mental: ame todos os seus personagens, sobretudo os maus — “se não consegue amá-los, não os escreva”. Vilões acham que são bons.

Lições-Chave do Capítulo XVII

  • Ache o desejo, depois a contradição; a pressão revela, a escolha define.
  • Construa o elenco para fora, a partir das dimensões do protagonista — mantenha-o a figura mais profunda do tabuleiro.
  • Para comédia, dê uma cegueira; para vilania, dê autojustiça; para todos, dê amor.
  • Não pregue a motivação a causas específicas — diminui o personagem; deixe mistério.