COESÃO E COERÊNCIA

CAPÍTULO 5: Intencionalidade e Aceitabilidade

Beaugrande, Dressler & Halliday

Aqui o texto deixa de ser tecido e vira gente. Dois critérios olham para as duas pontas da comunicação: a vontade de quem produz e a boa vontade de quem recebe. Entre as duas há um pacto — e é o pacto, não as palavras, que faz a mensagem chegar.

Intencionalidade: a Vontade

Antes da primeira palavra, alguém quer que aquilo seja texto — coeso, coerente, a serviço de um plano: informar, convencer, comover. O texto não cai do céu; é instrumento de um propósito humano. Onde não se enxerga a intenção, o leitor pressente abandono e larga.

Como aplicar: antes de escrever, declare a si mesmo o que este texto deve fazer com quem o ler. Sem alvo, não há acerto.

Aceitabilidade: a Boa Vontade

Do outro lado, o leitor se dispõe a colaborar — tapa lacunas, releva um tropeço, vai junto — desde que sinta ali relevância e proveito. Ler é um ato cooperativo: o sentido não é transmitido pronto, é negociado a cada frase. Sem essa boa vontade, nenhum texto se completa.

Modelo mental: comunicação não é transmissão, é cooperação. Você escreve metade; o leitor escreve a outra metade.

Escrever de Costas

Escrever para si mesmo, de costas para quem recebe, derruba a aceitabilidade — e abusar da paciência alheia (tropeço atrás de tropeço) faz o leitor desistir de cooperar. A boa vontade é um crédito que se gasta: queime-o e o resto, por mais correto, vai para o lixo sem ser lido.

Cuidado: a mesma mensagem muda de forma conforme quem a recebe. Escrever bem é escrever para alguém — nunca para ninguém.

Lições-Chave do Capítulo 5

  • Intencionalidade: alguém quer que aquilo seja texto, com um propósito. Sem alvo, não há acerto.
  • Aceitabilidade: o leitor coopera enquanto vê relevância — e o sentido se negocia, não se transmite.
  • Texto é pacto entre duas vontades. Calibre-o para quem vai aceitá-lo, ou escreva de costas para ninguém.